terça-feira, 16 de junho de 2015

Ilhas Faroe: por que os estrangeiros jogam na liga mais remota da Europa

Vocês já estão acostumados ao especiais da UEFA que eu gosto de postar aqui, agora pela primeira vez trago um da BBC Sport. "Faroe Islands: Why foreigners play in Europe's most remote league" por Owen Amos, da BBC News. O artigo foi publicado no dia 12 de junho, é bem longo mas também muito interessante!


As Ilhas Faroe são muito longe de qualquer lugar

No meio do caminho entre Islândia e Noruega, cerca de 200 milhas ao norte da Escócia, o país fica no Atlântico Norte chicoteado pelo vento.

A seleção está melhorando rápido: rankeada em sua melhor posição, a 102ª no mundo, logo abaixo da Macedônia, eles chocaram a Europa ao vencer a Grécia por 1-0 fora de casa no ano passado.

Mas enquanto a seleção se aquece no centro das atenções, a liga nacional espera nas asas. A divisão principal das Ilhas Faroe é rankeada em 41º de 54 associações pertencentes à UEFA. A média de público do último ano foi cerca de 500.

Olhe de perto, porém, e torna-se claro que esta remota e despretensiosa liga atrai jogadores de futebol de todo o mundo.

Vinte e cinco estrangeiros - de 14 países incluindo Brasil, Nigéria, e Estados Unidos - jogaram na primeira divisão este ano.

Então por que eles migram para este posto avançado rochoso, onde as multidões são esparsas e a temperatura média no verão é de apenas 13ºC?

Suas respostas revelam muito sobre o mundo cada vez menor do futebol moderno, onde os jogadores vão a qualquer lugar - até mesmo 62 graus ao norte - por um contrato.

Sonhando com a Europa - mas nunca com as Faroe

França, Bélgica, Inglaterra? Os rapazes africanos que realizaram seu sonho em um lugar inesperado.

Ibrahima Camara, um atacante senegalês de 23 anos, chegou às Ilhas Faroe em 2010. Ele assinou pelo B68, um clube da vila de Toftir, de população 823.

"Cheguei no inverno," diz ele, tremendo com a memória. "Estava muito frio."

Quando jovem, Camara jogou por um dos maiores clubes de Senegal, o Diaraf. Como muitos jogadores africanos, ele sonhava com a Europa.

"Mas França ou Bélgica, talvez Inglaterra," diz ele. "Nunca as Ilhas Faroe."

Quando um amigo mudou para a Inglaterra, ele apresentou Camara para um agente senegalês com residência em Portsmouth. Camara lhe enviou vídeos, e o agente conseguiu uma transferência para o Al Shabab, um clube em Dubai.

Camara treinou lá por seis meses, mas o Al Shabab não conseguiu chegar a um acordo com o Diaraf. Uma mudança para o Irã fracassou, e os testes no Le Havre e Toulouse na França foram cancelados porque ele não conseguiu um visto.

Finalmente o agente sugeriu as Faroe: o último recurso na terra da abundância.

"Quando eu cheguei, eu só pensava em sair," diz ele. "Eu só falava francês. Foi difícil para mim."

Camara continuou e, este ano, obteve uma mudança para o campeão faroês B36.

Ele ainda sonha com França ou Bélgica, mas, depois de seis anos, o senegalês está em casa nas Faroe. Ele ainda trabalha meio expediente em uma padaria.

"Quando eu vou para o futebol, eu não tranco a porta do meu apartamento," diz ele. "Estou aqui há seis anos e não vi nenhum crime. A vida é muito calma."

Do Ware FC para onde exatamente?

Albert Adu em ação pelo clube mais velho nas Faroe, TB Tvøroyri
Vivendo a vida alternativa de estudante nas Ilhas Faroe

Em janeiro, Albert Adu jogou na oitava divisão do futebol inglês pelo Ware FC, um clube semiprofissional em Hertfordshire. Ele é agora um dos principais artilheiros nas Ilhas Faroe, com nove gols até agora nesta temporada.

Mas quando seu agente propôs uma mudança para o norte, era menos um caso de Ware, e mais um caso de "onde?"

"Eu não sabia sobre as Ilhas Faroe," ele admite. "Eu tive que procurá-las."

Adu nasceu em Gana e cresceu em Amsterdam. Com 16 anos, ele se mudou para a Inglaterra com sua família.

Enquanto jogava futebol juvenil e amador no norte de Londres, ele conheceu um agente que propôs uma mudança ao CD Comarca de Nijar, um clube na quarta divisão espanhola.

Com alojamento e um salário de tempo integral, ele permaneceu na Espanha por 18 meses, até que o dinheiro do clube acabou. Ele retornou para as divisões inferiores do futebol inglês, tendo um trabalho de escritório na empresa da família para completar as despesas.

"Eu gostei do meu tempo jogando pelo Ware, mas eu queria voltar ao futebol em tempo integral," diz ele. "Meu agente disse: 'Se você estiver preparado para ir para qualquer lugar na Europa, eu posso lhe encontrar alguma coisa'. Ano passado ele me falou sobre as Ilhas Faroe."

Adu foi para as Ilhas Faroe por uma semana em agosto para ver o clube, o TB. Impressionado com as boas-vindas, e a história, ele concordou em assinar a tempo integral.

Ele agora vive em uma casa com outros três jogadores estrangeiros - dois islandeses e um da Costa do Marfim.

"Foi um pouco confuso no início, um pouco estudantil, mas estamos melhores," disse o jogador de 26 anos de idade.

Aquela casa de cinco quartos em Tvøroyri - a duas horas de um passeio de barco de Tórshavn - é um longo caminho desde as ruas de Amsterdam, onde Adu aprendeu a jogar o jogo.

"Tem sido uma jornada incrível," diz ele. "As coisas nunca saem do jeito que você planeja, mas eu gostei de tudo."

Dez anos depois - um passaporte, uma mulher, duas filhas

O brasileiro Alex José dos Santos jogando pelo HB, seu terceiro clube faroês
Os garotos do Brasil que não chegaram a seguir os passos de Kléberson

Fora do vestiário do time da casa no estádio do HB em Tórshavn, dois brasileiros recuperam o atraso no português.

Um é Clayton Soares do Nascimento, um atacante de 36 anos de idade, que está jogando sua 13ª temporada nas Ilhas Faroe. Ele está agora em seu quarto clube, o ÍF.

Seu compatriota é Alex José dos Santos, um lateral esquerdo, ainda rápido e elegante aos 34. Esta é sua 12ª temporada nas Ilhas Faroe; HB é seu terceiro clube.

Ao contrário de Ibrahima Camara, Santos nunca sonhou com a Europa. Quando você é do Brasil, você não precisa.

Mas quando um agente croata chegou à sua escola de futebol em São Paulo, uma mudança se tornou possível. Com 21 anos, Santos assinou com o Opava na segunda divisão tcheca.

"Meu agente era muito bom," lembra ele. "Ao mesmo tempo, ele levou Kléberson de um clube brasileiro para o Manchester United. Ele me disse: 'Um sonho se tornou realidade, talvez o seu também se torne.'"

Depois de ajudar o Opava a subir, Santos mudou-se para o Frem na primeira divisão dinamarquesa. O brasileiro fez apenas duas aparições na liga. Em sua segunda, ele substituiu e foi substituído.

"Eu tentei jogar bem, mas estava muito nervoso," diz ele. "O técnico disse: 'Eu gosto de você, mas eu acho que você deve passar um tempo no segundo time.' Eu pensei: 'Sem chance. Eu vim do Brasil, eu não quero jogar pelo segundo time'. Eu disse que queria ir para casa."

Em vez disso, o presidente arranjou uma mudança para as Ilhas Faroe. Santos olhou no mapa: depois de República Tcheca e Dinamarca, parecia, e sentia, como o fim da linha.

"Depois do meu primeiro ano com o B36, em 2004, eu fui para casa e não queria voltar," diz Santos. "Em 2005, eles me pediram para retornar. Eu pensei: 'É muito difícil.' Mas o contrato era bom."

Então ele voltou. Dez anos depois, Santos tem um passaporte faroês, uma esposa faroesa, e duas filhas.

"O Brasil é muito criminoso," diz ele. "Alguém é esfaqueado a cada cinco segundos em São Paulo. Quando você tira dinheiro, está sempre procurando. Aqui, você tira dinheiro e ninguém se importa. Eu gosto das pessoas aqui."

Nunca em um milhão de anos

Mayowa Alli: nascido na Nigéria, criado nos EUA, agora jogando nas Ilhas Faroe.
A estrela da faculdade ainda sonhando com o grande momento.

Em janeiro de 2014, Mayowa Alli podia ver o grande momento. Como um dos melhores jogadores do futebol universitário dos EUA, ele fez parte do superdraft de 2014 da Major League Soccer.

Ele poderia ter se juntado a um dos maiores clubes do país - mas dos 267 jogadores no draft, só 76 foram contratados. Alli não foi um deles.

Avance 18 meses e ele está nas Ilhas Faroe: trabalhando quatro horas por dia como um carpinteiro, e construindo sua carreiro por baixo com o KÍ Klaksvík.

"Eu nunca pensei em um milhão de anos que eu ia acabar aqui," diz ele. "Se você tivesse me dito isso quatro anos atrás eu teria rido."

Depois de perder a MLS, Alli olhou para o exterior. Um jogador da sua faculdade, Conor O'Brien, mudou-se para a Dinamarca em 2010, e agora joga na Bundesliga austríaca, então Alli fez testes no Jammerbugt na terceira divisão dinamarquesa.

Ele foi tão bem que acabou por assinar um contrato de dois anos com o Vendsyssel na segunda divisão.

Depois de um punhado de jogos, o clube decidiu emprestá-lo. E assim ele chegou em Klaksvík, a segunda maior cidade das Ilhas Faroe, em janeiro.

"Pessoas da minha idade, quando terminam a faculdade elas tendam a ir viajar," diz ele. "Estou viajando também - mas estou jogando futebol ao mesmo tempo."

Com apenas 23 anos, ele tem tempo - e habilidade - do seu lado. Ele pode até mesmo ir para a MLS, a liga que o rejeitou?

"Eu só quero alcançar todo o meu potencial," diz ele. "Eu sei que é uma resposta clichê, mas eu quero ir o mais longe que eu puder. Quer seja a primeira divisão dinamarquesa, a Premier League, a MLS, eu não sei."

E se tudo o mais falhar, ele pode recorrer à carpintaria.

"Eu não tenho que fazer isso, mas me mantém ocupado antes do treino," diz ele. "Estou ficando melhor nisso. Eu me consideraria habilidoso com as mãos agora".

Eles me disseram para comprar algumas roupas a mais

Aleksandar Djordjevic: 14 anos nas Faroes e contando
Ajudar um companheiro, mas encontrar um lugar para chamar de lar.

Aleksandar Djordjevic chegou às Ilhas Faroe em 2001, vestindo shorts e camiseta. Sua pesquisa, ele admite, não foi completa.

"Quando eu mudei os voos na Dinamarca, eu disse ao balcão de informações que estava indo para as Ilhas Faroe," diz ele. "Eu disse: 'É um pouco ao sul daqui, não é?' A mulher disse: 'Não, é norte - vá e compre algumas roupas.' Então eu fui."

Sua mudança para o KÍ Klaksvík foi um favor ao seu técnico sérvio: a última parada em uma longa carreira que viu Djordjevic jogar centenas de vezes pelo Partizan Belgrado, capitanear uma seleção sub-20 da Iugoslávia incluindo Zvonimir Boban e Davor Suker, e jogar na Austrália e Suíça.
Ele esperava ficar por seis meses. Quatorze anos depois, Djordjevic ainda está em Klaksvík, cativado por sua beleza coberta de neve.

"Eu vi a mesma coisa que você vê," diz ele, apontando para o porto e as montanhas atrás. "É por isso que eu fiquei. Quando você é mais jovem, as Ilhas Faroe pode ser um primeiro passo para jogar em qualquer lugar na Escandinávia, ou em outro lugar na Europa. Quando você tem 30 anos ou mais, você quer apenas um lugar em que possa viver normalmente. Para mim, é agora o lar. Eu ainda tenho uma casa em Belgrado - eu vou para visitar, não há problema. Mas é muito rápido para mim."

Djordjevic, agora com 46 anos, jogou regularmente pelo KÍ até 2006. Ele foi recentemente encarregado da equipe feminina das Ilhas Faroe e agora dirige a equipe feminina dos combinados de B36 e AB Argir.

E ainda há um Djordjevic em campo nas Ilhas Faroe: o filho de 21 anos de Aleksandar, Filip, joga pela equipe da primeira divisão Víkingur.

Filip Djordjevic é um dos melhores jogadores nas Faroe
Quando ele conseguir seu passaporte, é esperado que o atacante jogue na seleção nacional das Ilhas Faroe - "Ele está entre os três principais jogadores da liga, sem problema," diz o pai.

Se isso acontecer, ele vai personificar a migração mundial de jogadores de futebol. Nascido na Austrália, enquanto seu pai jogava lá, de pais sérvios: Filip Djordjevic, o internacional das Ilhas Faroe.

Leia a versão original no site da BBC

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